terça-feira, 1 de junho de 2010

C de criança C de criativa

Bastava ver as unhas rosa-pérola da minha avó a desapertar num clique o típico fecho de porta-moedas e a colocar uma na ranhura daquela figura de plástico pronta para me receber, para começar a sonhar. Lembro-me que sempre que ela me dava a moeda para a mão eu não aceitava, porque já queria estar bem assente no lugar que me tirava os pés da terra quando a viagem começasse.

Todos nós temos no sótão da infância recordações daquelas maquinetas fantásticas que pontuavam as portas dos cafés e as esquinas dos centros comerciais e nos levavam a viajar na imaginação como só uma criança o pode fazer. Ainda existem algumas por aí perdidas que convidam, hoje sem o furor de outros tempos, as crianças para passeio. Helicópteros, carros, chávenas, que não eram mais do que pêndulos que nos deslizavam lentamente num curto espaço e num curto tempo. Aquele momento de movimento pendular efémero era suficiente para uma criança voar para onde desejasse ir e para ser o que quisesse ser, sem nada que a prendesse à realidade a não ser o final do tic-tac daquele braço metálico que nos elevava uns centímetros e a infância.

Talvez hoje esses pequenos e toscos carrosséis da imaginação já não tenham tanto sucesso porque os cenários dos jogos de computador e dos desenhos animados, que misturam fantasia e realidade, deixam muito pouco espaço à imaginação. Ou porque têm fantasia de alta definição, ou porque castram a ingenuidade de uma criança com apontamentos mais reais e por vezes violentos.

Gostava de saber desde quando é que uma criança é obrigada a crescer e desde quando é que o mundo da fantasia, outrora espaço privado de cada criança graças à personalidade da sua imaginação, se tem de misturar com o real.

Todos os meus sonhos, fossem voar, conduzir, flutuar no espaço, saltar de nuvem em nuvem, passear pela avenida dos Looney Tunes ou por cidades feitas de fadas e outras fantasias que hoje o bloqueio da idade não me permite descrever, se realizavam da mesma forma: com uma moeda de 50 ou 100 escudos.

Hoje, quanto mais aproximado da realidade, mais fantástico é. Todos os brinquedos são simulações de realidade, ao invés de serem trampolins de sonhos.

Há quem defenda que a personalidade seja de quem for, se divide em 3 partes: Pai, adulto e criança. Este PAC, que, ao contrário ao PEC, não é algo que nos restringe mas sim que nos liberta, é responsável pela forma como agimos quando recebemos um desafio. O Pai é aquela voz que nos diz se somos ou não capazes (até porque se fosse mãe, diria que somos sempre), o Adulto racionaliza e recebe o desafio, a Criança faz. A partir daí, tudo depende da parte de nós que mais deixamos viver.

Quando recebemos um briefing o melhor é ficar em stand-by e não ter pressa em concretizar, senão recorremos, ainda que inconscientemente, a referências do que já foi feito. Devemos sentir o que temos naquele pedaço de papel, identificar com clareza o desafio e a partir daí deixar a criança viver. E uma criança gosta de ver, experimentar, de sentir e só depois pensar, com uma sinceridade e criatividade inigualáveis.

Com o avançar da idade é cada vez mais difícil guardar o espaço de recreio, porque o peso das responsabilidades inerente ao crescimento ocupa muitas gavetas da nossa cabeça. No entanto, penso que o crescimento mais saudável é aquele que consegue equilibrar as responsabilidades com a manutenção de um entusiasmo infantil que nos move enquanto pessoas e que nos faz crescer enquanto criativos.

Na idade adulta, a Criança em nós costuma sair à noite para brincar. Quem é que nunca teve uma ideia enquanto dormia e depois, caso confie na manhã seguinte e não no bloquinho na mesa de cabeceira, não se consegue lembrar? O acordar é a altura em que o Adulto está mais presente, a pensar no dia que temos pela frente e a verificar as gavetas das nossas tarefas.

Seja qual for o peso desta teoria de 3 partes, acredito que é cada vez mais urgente que a Criança em nós ganhe mais espaço.

Acredito que quem foi, de facto, criança na infância e não teve pressa de crescer, há-de ser mais criativo.

Acredito que ter tido uma infância é o que me faz ter fé mesmo quando toda a gente diz que não é possível ou que não vale a pena.

Acredito que manter a minha infância é o que me faz retirar prazer de matar saudades de me deitar na relva e não de passar por cima de alguém.

Acredito que a criança em mim é o que me faz continuar quando me dizem “não faças isso”.

Acredito que manter a minha infância é o que me faz lutar para que a minha vida nunca seja um castigo.

Acredito que ter tido uma infância é o que me permite olhar para uma pedra e ver um castelo.

Acredito que ter tido uma infância é o que me faz levar a sério as minhas brincadeiras de vida e não enganar os outros nem a mim mesma.

Acredito que ter tido uma infância é o que me dá a ingenuidade suficiente para imaginar uma casa que ainda não tenho, sem medo que ela tome outros contornos.

Acredito que manter a infância é o que me faz simpatizar com ideias consideradas terríveis ou arriscadas, aquelas feitas de papel.

Acredito que ter tido uma infância é o que me faz acreditar que se sair da minha zona de conforto até podem acontecer coisas boas.

Acredito que nós é que escolhemos o que queremos ver: Se uma máquina tosca de plástico e parada, se uma forma de viajar e os lugares onde ela nos pode fazer chegar.

(click) Always keep your childish innocence.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Tirinho

Don’t build to brake.

O criativo que mais sucesso tem é aquele que não faz ideia de que fracassar, mais cedo ou mais tarde, é inevitável. Essa é uma possibilidade que nunca coloca porque, caso o faça, começará a construir obras fáceis de mandar abaixo e de desaparecer. O problema não está no efémero, mas sim na força da construção e na intensidade da criação, seja qual for o seu tempo de vida.

É favor não criar ideias a pensar nas suas saídas de emergência. Nunca.

Su

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Tirinho

"The truth isn't the truth until people believe you, and they can't believe you if they don't know what you're saying, and they can't know what you're saying if they don't listen to you, and they won't listen to you if you're not interesting, and you won't be interesting unless you say things imaginatively, originally, freshly."

Bill Bernbach